Matéria publicada neste domingo dia 22, dia mundial da água, no jornal Folha de São Paulo, destaca a situação crítica no abastecimento de água em vários municípios do interior paraibano. O município de Baraúna-PB, é um dos citados da matéria, que destaca a dificuldade dos moradores em ter acesso ao precioso liquido no semiárido paraibano.
Confira a matéria na integra:
Três vezes por semana, ao menos, um vaivém na madrugada de caminhões-pipa do Exército carregados de água potável desperta uma cidade inteira do sertão paraibano.
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| Jonas de Souza, 54 anos, em assentamento na zona rural de Baraúna. |
Os veículos viajam até 86 km para captar o produto que abastece a maior parte dos 4.600 moradores de Baraúna (a 220 km de João Pessoa).
O município chegou ao final da última década (2010) com apenas 0,15% das suas 1.300 casas com água encanada, pior índice entre as 5.565 cidades do Brasil, segundo relatório do PNUD (agência de desenvolvimento da ONU), a partir de dados reunidos pelo IBGE.
No período, a taxa de cobertura do serviço caiu mais. Em 2000, era 0,36% o total de residências ligadas à rede.
A dona de casa Maria José Cassimiro, 61, gasta três horas toda vez que segue a uma das 13 cisternas comunitárias da cidade para encher e carregar sozinha dez baldes de 20 litros de água cada um para beber e cozinhar.
Sou o homem da casa desde que o meu marido adoeceu. Não temos cisterna e para ter água é preciso todo esse esforço. Não queremos mais morar aqui, diz.
Só acessa as cisternas públicas quem não as tem em casa. O morador que conta com um reservatório precisa desembolsar até R$ 250 mensais para pagar um caminhão-pipa particular.
Para se viver bem em Baraúna, a comerciante Valquíria Vasconcelos cita um kit obrigatório: cisterna, bomba d'água e baldes. O primeiro item, diz, “é o melhor presente de casamento por lá”.
Castigado por uma estiagem que secou açudes, o lugar não vê um bom inverno, como a chuva é conhecida na região, há quatro anos ininterruptos. O resultado: a produção agrícola de cereais minguou e forçou um êxodo rural de agricultores.
Quem resiste, faz malabarismos. O criador de cabras Francisco Firmino, 69, conhecido como Seu Chicó, tem moído espinho de mandacaru (tipo de cacto da região) com milho para fazer ração e manter os animais vivos.
Já vendi 12 das 30 cabras por medo de não ter mais o que dar de comer a elas.
Na lanterna do ranking nacional de água encanada, Baraúna sofre com a paralisação, há mais de dez anos, da obra de uma adutora no açude Santa Rita, localizado a cerca de 8 km da cidade.
Segundo o vereador José Souza (PMDB), quando a construção, financiada pelo governo federal, parou, “canos e bombas foram alvo de furto e vandalismo”.
A Folha entrou em contato com o prefeito reeleito Alyson Azevedo (PMDB) para comentar o caso, mas ele não atendeu as ligações. Em sua página na internet, a prefeitura diz ter o contrato de dois caminhões-pipa que também levam água à população.
Outras seis cidades paraibanas estão entre as dez com os menores percentuais de população atendida por água encanada no país: Alcantil (2,94%), Santo André (2,14%), Tenório (1,83%), Santa Cecília (1,22%), Sossêgo (1,2%) e Assunção (0,77%). Todas elas também são abastecidas por caminhões-pipa.
Sem universalizar o serviço, o governo marginaliza uma população e cria, na figura do caminhão-pipa, um processo feudal de dependência muito usado como barganha eleitoral, comenta Carlos Tucci, engenheiro e consultor do Banco Mundial.
Folha de São Paulo

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